sexta-feira, 9 de novembro de 2012

amorte



um passarinho treme de frio e de fome na noite vazia
no alto, no céu, silhueta um vulto voando só
desce qual raio o animal de rapina, qual raio
some pra sempre do mundo um pedaço de dor

quer ser engolida? – pergunta o fogo à palmeira
posso arrancá-la? – oferece a menina à flor

dispo-me tarde demais de um sonho inebriante
nu já não posso vestir-me com as graças que escolho
deixo-me a única roupa do corpo que resta
- é meu sorriso?
- teu riso mata meu frio e minha fome de amor

o que fazer da vontade vermelha que eu tenho
de te pegar pelo braço e sair pelo mundo?
subo no galho mais alto que eu posso do ipê
e dou-me em calmo presente pra ti me comer

.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

bislabial



me custa crer que um pedaço de mim
(digamos assim, meu lábio inferior)
tenha enfim retornado à face trêmula
tenha tornado a compor a mandíbula
rerrecobrindo meus dentes da frente
rerrefazendo minha cara de gente

acostumava-me eu a olhar-me
no espelho - que os dois olhos sempre os tive
dentes sujos, amarelos, expostos
o véu cachoeiro nos meus sempre olhos
pouco escondia – da dor que eu então sentia
no amarelo e sujo de cada dia

agora é melhor desviar-me do espelho
os olhos os tenho – tenho certeza
não me falta mais faz, ver-me pra trás
meus lábios os junto e selo a minha boca
e calo o medo da face composta
refeitos restos, respiro a resposta

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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

o que passa por dentro e alivia a noite interminável?



e o tempo vai
como só o tempo sabe:
ponteiros grande e pequeno
marcando minutas horas
cada vez mais díspares.

temei o relógio centrífugo:
que ao apontar
desaponta
nossas palavras feitas de números.

o que passa por dentro e alivia a noite interminável?
que o sim nos diga. 

domingo, 30 de setembro de 2012

para no p da paralisia


para
para
para conseguir
para sem seguir
para rir, parir outrosser
para ar, parar de sentir
para
parar de tar a par
para
para
parar

.

domingo, 23 de setembro de 2012

Refeliz



Conheci alguém que me comprou
Conheci alguém que me vendeu
Conheci alguém que me roubou
Conheci alguém que me prendeu
Conheci alguém que já me amou
Conheci alguém que me esqueceu
Conheci alguém que me beijou
Conheci alguém que me fudeu.

Disse esse alguém: não sei quem sou
Se quer saber, o alguém sou eu.

Me vi cantando ao deus dará
Me vi chorando aqui e ali
Eu assobiando um tom de lá
Eu assuntando o assunto em si
Me pego à toa e sem ligar
Pro que há no mundo, se há e daí?
Me faço mudo em meu falar
Me ponho surdo em meu ouvir.

Digo a mim mesmo: eu não vou dar
Pro meu amor o amor que eu quis.

E surpreendo-me a gozar
O amar que é ela e eu sou feliz.

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sábado, 15 de setembro de 2012

cachorro



Ando nas ruas escuras e vejo
Nada a não ser meu andar
Bafo de pinga, de porre, de ontem
Nada a não ser meu andar

Vejo um cachorro num canto tremendo
Quando mirei seu olhar?
Paro que o passo que eu dou não é nada
Nada me faz prosseguir

Treme o cachorro num canto de esquina
Magro e sarnento e chinfrim
Pouso meus olhos na triste figura
Vejo e ele olha pra mim

Late essa vida, late a conversa
Late, cachorro, pra mim
Mas não há nada, que me interessa
Nem um ruído ruim

Só o silêncio, de um cachorro
Triste, olhando pra mim
E eu dou-lhe as costas, que outro cachorro
Fraco já vive em mim

Outro cachorro
Magro e sarnento
Já vive dentro de mim

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terça-feira, 4 de setembro de 2012

brazoo



eu não sou pirarucu
e alegre nadar na água alcalina

não sou jacaré-açu
a galgar cadeia alimentar
não sou como a sucuri
por de fome deixar-me enrolar  

não sou como um caititu
comer tudo, doces, flores, merda
nem como um macaco aranha
prender meu rabo, anunciada a queda

não sou como um guaxinim
mascarar a dor à mão-pelada
não sou nada como a onça
de me apete-ser qualquer pintada

nem que nem jaguatirica
para em paz dormir em qualquer galho
não sou como o mico-estrela
por um trix salvar-me de ato falho

não sou como um boto rosa
a mamar em doces, turvas águas
não sou que nem é o guariba
a gritar o amor, tenaz, sem mágoas

nem como um tamanduá
a dar bandeira a troco de insetos
nem mesmo sou como humano
a ver-me inteiro à falta de afetos

sou só como um tatu bola
sou só um comum tatu bola
que a casca engrossa
e a vida rola
.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

o ar trás



o ar trás o cheiro e é só, no más
pensar, querer, quedar, passar
o cheiro traz o ar dor que há
prazer cessar, conter, prever
dosar o triste e até sorrir

pular, sorver, saber parar
é só o cheiro que o ar trás
pegar, soltar, sonhar, perder
o ar, o cheiro, é só o que traz
provar, seguir, sentir, partir

o cheiro é só o ar quem traz
chegar, calar, comer, chorar
o ar só traz o cheiro a quem
fechar o olhar e ver jamais
deixar pra trás, sem ar, sem ir

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

sol



dia passa como não passasse

dia passa como não passasse
é quarta à tarde, é tarde, é tarde
o dia não passa, é tarde, é tarde
o quarto é um quadro, um quadro, lá
a tarde é surda, é surda, é vã
o dia é tudo, é tudo, é tão

a tarde espalha como um pó

a tarde espalha como um pó
no quarto há vaga, é vago, e vago
não paga a pena, é pago, e pago
a tarde é surda, e arde, e é ar
é dia às claras, claro, é o só
claudica a tarde, é claro, eu sol

dia para como não passasse
espero o vento, tento. não.
espero o vento, aprendo. não.


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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Águas d’olhos



A melhor molhada é um mar de água
É la mar, mágoa, é a mulher, amada
Deixe então: a verdadeira água
É a chuva que cai e mal sai do chão
Volta sincera pro céu da selva
E torna-se em torrente paixão

A mais feia morada das águas
São os olhos que vertem as lágrimas
São falsas as águas, são febris
Vertente do olhar que não me quis
Nem líquido e certo adeus a dar
Só queima e não molha esse chorar

Em duas águas Moisés dividiu
Fingindo esperança em seus judios
E logo após suas águas fechou
Afogando seu perseguidor

Em duas páginas te descrevi
Como criança que eu quero e perdi
Por tentar com afinco te ter
Revogastes tuas águas pra mim

Em teus dois olhos escorre o amor
Feito gotas de líquida dor
Pingas só uma gota aos meus pés
Liquidificando quem te quer

Lágrima chora o frio de um amor
Pede n’água que cesse o calor
Teu par d’olhos é seco demais
Traz um fogo e não água é o que atrais
.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Adamastor


Ah, Adamastor, cê num é um coadjuvante.
Quem dera cê isso fosse, Adamastor.
O coadjuvante ao menos é digno no que cumpre,
ao menos faz ele o papel ao lado
dos que vivem de fato a vida no placo.

Ah, Adamastor, cê é menos que um coadjuvante.
Cê é um substituto.
Nos buracos que os outros deixam,
reais personagens da trama,
por vezes, Adamastor,
você percorre os buracos,
Pra fazer as funções de fato.

Só há uma dignidade nocê, Adamastor,
de ser você substituto.
É que quando cê faz as vezes (as funções e os dizeres)
daqueles:
de marido, mãe, filhas, afilhados, amigos, dos dançarinos dos prazeres,
pelo menos cê cumpre a função
- às vezes -
que aqueles a quem cê substitui
não cumprem às vezes.

Eu te amo.
(Talvez não eu:
teu substituto anjo).

domingo, 15 de julho de 2012

Backing vocal



Hoje é o dia mais triste da minha vida
(shoo bi doo, da da)
E não há a tristeza presa no
(shoo bi doo, da da)
Hoje ser o dia mais triste da minha vida
(shoo bi doo, da da)
Pois na ordem da ordem das coisas
(shoo bi doo, da da)
Hoje ser o dia mais triste da minha vida
(shoo bi doo, da da)
Diz que todos os outros passados
(shoo bi doo, da da)
São os dias menos tristes da minha vida
(shoo bi doo, da da)
E que todos os outros por vir
(shoo bi doo, da da)
Serão dias menos tristes na minha vida
(shoo bi doo, da da)
E há o hoje com a certeza (a esperança)
(shoo bi doo, da da)
De que não há a tristeza (só a criança)
(shoo bi doo, da da)
E chorar todos os choros do mundo
No um só dia de hoje
Deschoram as tristeza que eram, e
Deschoram as tristezas que serão
(shoo bi doo, da da)

.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

paratabéns


(você é o um/ você nos diz/ você nos faz/ ficar feliz)
quanto índio
ó, quanta a língua
quando enquanto encontro
ela quem vem
revolver nossa terra
das matas exatas
que tratam de aguar
nossos olhos sem pés
vou vulva
tou turva
só és

(você é o um/ você nos diz/ você nos faz/ ficar mais feliz)
quanta filha
ó, quanta tortilla
ferve em forno o entorno
do retorno
de todos nós
às árvores
queimadas por nós
aos jatobás, às tatás, aos ipês
sou suas
tuas trovas
vou vocês

(você é o um/ você nos diz/ você nos faz/ ficar feliz)
quantas vidas
ó, quantas queridas
sondo o som do nosso sono
espichando nossos
amendoados olhinhos
amêndoas abertas debaixo
da copa larga
do nosso cacho
dos índios, das filhas, dos pírito santos,
parabéns

.

domingo, 1 de julho de 2012

Cesto centido


O sexto já é o cesto
O sexto campeonato
O cisto já é o hexa
Fodendo no decatlo

Segura a vara e salta longo
E dispara, para, para

Calma, amor da minha vida
Calma o disparo sem alma
Dispa-se e entende a agonia
Dez amparadas minh’ alma

Segura a alma e tira isso d’ele
Tira o ele da alma

Ama, amor da minha vida
Ama sem dar nem esperar
Entende que a alma é sem “ele”
Alma sem “ele” é amar


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terça-feira, 19 de junho de 2012

alea ira furor iacta brevis est


viver uma coisa grande
é um anagrama
saber pouco a cada dia
é enternecer
desviver a longa estrada
é a tarde brusca
que recurva em noite o canto
e assim adentra.

desvairar por breve tempo
é a voz latina
resignar o lance à sorte
é um dito findo
deixa-me à guerra dos lobos
me atira às bocas
faz-me já em quantos pedaços
quiseres loucos.

sou cedo em toda aventura
sou pré primeiro
despede-me tarde a dor
dispo-me inteiro
nu recebo o couro bravo
do teu vergalho
santo entendedo as chagas fundas
no meu caralho.

.

domingo, 3 de junho de 2012

meu dez temido




eu vivo um namoro que em língua gê
voz dos primeiros caciques daqui
dizia assim:

“joga-te fora mui bravo guerreiro
despe-te e a pele que é tua abandona
corta teus braços e não deixa o toco
pra do cotoco nascerem outros braços
deixa tuas pernas só pros urubus
que eles repastem tuas gambas sozinhos
as andaduras que antes serviam
hoje és inerte não delas precisas
solta o teu peito pro corvo comer
eternemente qual grega epopeia
solta a tua cara pro tapa marcar
solta a tua alma, tua dor, tua ideia”

e desse namoro farto a textura
sinto meu ser desdescer das alturas
despido a mim de mim mesmo e a saudade
é da mulher, do gozo e à vontade

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quarta-feira, 30 de maio de 2012

renatinha



ela tem olhos doces de amêndoa
e na boca um teor de avelã
vez que indaga um sorriso castanho
suas vozes, nozes de outonar
ela vem, ela vem, com as sementes
de outrora, e são hoje e as manhãs
ela planta, ela dança, ela casca
que envolve entre cada de nós
ela vem, ela vem, como fada
de um destino que então será ser
ela veste um vestido de baile
que entredança o desnudo prazer
ela canta com as vozes da gente
recortando o olvido em tocar
ela vem, ela vem, só de verde
ela vem, ela vem, só por ver-te
ela pinta o meu mundo de preto
pro presente no escuro escutar
ela chega cambiando a tristeza
em tristeza que o amor sente em paz
ela torna o que é tarde na vida
em tornados de claro e de luz
ela acende em meu peito a procura
ela muda o meu jeito de achar
ela é fogo, ela é terra, ela é gente
eu preciso aprender a morrer
ela brota da casca macia
ela é dura, e ela dura, e ela é o ar

.

terça-feira, 29 de maio de 2012

renata

quando enfim eu pensava
que eu ia enfim respirar
quando me eu já emergia
do eu mesmo me encaixotar
o mar me engolfa outra vez
e eu paro
de ver o mar
que o mar engolido
já não é mar
nem terá sido
é sal espessando em minha boca
e um gosto de areia e cascalho
não é onda batendo na praia
é o gosto azedo no nada
perdi o olho comprido
que sobre o mar vê a terra
perdi a vista desbasta
que se quer ver tudo enxerga
o barco que vai ao longe
só vai ao longe
só vai ao longe
só vai ao longe


.

domingo, 20 de maio de 2012

Mecanismo explicativo de um fenômeno amante


ouvir, escutar, entrar dentro a cabeça no amor
deixar morrer o ardor entre as pragas do entardecer
uivar, gemer, de dor, quando a lua nem quer nascer
nem toda paixão é eterna, se o se esconder revela
nem todo gesto de amor redime o gostar amante
nem todo ciúme é o pior dos crimes que o amor condena
as pragas que a qualquer par, infectam sem dó nem nada
são filhas do desamar, ou do amar sem fé nem gosto
são netas do adoecer, bisnetas do amar com pena
tataranetas da dor: descendentes desbocadas
retorcendo-se no inferno rubro de suas bocas
que encontrando-se uma à outra, movem-se tão cismadas
pois se uma boca à outra o amor trata-as qual loucas
é que a dor foi flagrada: o resto é fim, o agora é nada.

.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

vela por nós




quando a chama quente (porém) débil
da vela acesa treme e ilumina
é ocê me ensinando a vera vida
cê ensolarando-me a ver a vida
é ocê me mostrando o tao da lida
cê me queimando o curto pavio
e o faço é o mesmo que eu não fazia
e o faro é mesmo o que eu não faria
que a fase é boa prum transformismo
que a vida é boa em toda afasia
que a vinda é boa de ocê em si mesma
sua vela acesa encima à minha mesa

.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

baby and the bathwater


todo o amar com um tal ardor
tem um arder que é consequente:
...
essa dor tem um tal tamanho
por mais contente em se tê-la
mais que se tente contê-la
em tentar por mar deixá-la
em tentar por enterrá-la
em voar pra longe dela
em de resto rastejar
a dor tem um tal tamanho
o tamanho é tanto nela
que maior que o amor é ela
que por mais que a corte o dente
que a mordê-la o mais se tente
que por mais em nós tentarmos
por mais tentar apertar-nos
a própria mordida sente
a própria medida é a dor   
a tamanha dor é a gente
...
cuspo no prato que como
saliviando essa dor
com o gosto que sai de mim
desço o eu todo junto à água
sobra um eu de nada no fim
...

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