quinta-feira, 30 de junho de 2011

quando eu sou triste



quero anjo de qualquer raça
quero anjo ainda que humano
quero anjo que diz vem comigo
quero ir de olhos fechados
quero com o anjo que queira
quero com ele a qualquer parte
quero provar o incomparável
quero o prazer de ser levada
quero que ninguém me espere
quero que não contem comigo
quero que desconfiem de mim
quero esquecer de quem sou
quero esquecer se sou forte
quero deixar, expulsar de mim
quero ser não mais responsável
quero nada que fui toda vida

quero ser o que quero ser

quero canto escondido de mim
quero onde ninguém vai chegar
quero ser frágil, alguém levar-me
quero abrir mão de solucionar
quero problema nenhum do mundo
quero ser fraca, fraca de dar dó
quero espantar a todos (até a mim)
quero desfrutar maravilhosamente
quero como em dia de aniversário
quero chegar à beira de abismos
quero querer pular, desesperada
quero saber que lá está meu anjo

quero, quero, que o anjo me abrace

quero meu anjo paciente e amoroso
quero meu anjo dizendo não pule
quero poder chorar, quero espernear
quero fazer escândalo, ser birrenta
quero saber de um anjo ao meu lado
quero só meu anjo a mim consolando
quero não contar com meu bom senso
quero que não conte com minha força
quero que saiba o que eu quero e o que
quero é ser frágil (e isso ele respeita)
quero só colo, quero dele o seu colo
quero exigência nenhuma, nada esperar
quero que nem precise confiar em mim
que quando estou triste assim
quero um anjo de asas
quebrando o meu mundo por mim


.

terça-feira, 28 de junho de 2011

e joão e maria

e eu alucino
os peixes e salamandras-fogo
cruzam o céu
você alucina
e o mar afoga em sertão
mas como é permanente
o ar viscoso de mel
torce meu corpo
em redemoinho
que suga um a um os movimentos
a alucinação
e me atira pra perto das estrelas
de costas
nunca vamos saber
e vejo com olhos postos nos reversos cotovelos
edificios cúbicos e árvores fosforescentes
arrancados do solo
que estamos alucinados
e voando
que somos alucinados
mais rápido e mais alto que eu
e você chega ainda mais perto
do que já estava
quando pedaços soltos e transparentes
do seu corpo
brotavam de dentro de fios dos cabelos
o entardecer é azul, amarelo
e você encolhe até sumir e reaparece
refeita em mil
e há cheiros noturnos em vermelho, violeta e
cinza claro e verde
e os rostos das pessoas
têm listras brancas e pretas
e as listras brancas e as pretas
estão salpicadas
dos rostos das pessoas
e eu alucino
e tudo parece chamuscado
e você alucina
toda cor é ocre, todo animal é o seu oposto
e os gostos
das frutas e das almofadas
brincam de maus sentidos
mas como é permanente
a alucinação
tudo contrai e duplica a si mesmo
e tudo derrete e tudo aumenta
de peso e diminui de tamanho
nunca iremos saber
que é de amor
e tudo vira do avesso em flashes
negros em tons pastéis
que estamos ou somos alucinados
e tudo se torna nada em partes cônicas
de sons elétricos
e o nada torna ao todo num caleidoscópico
jogo sujo de espelhos
e eu alucino
e você alucina
mas como é permanente
a alucinação
nunca iremos saber
que é de amor
que estamos ou somos alucinados



.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

análise do discurso



é uma figura de linguagem o amor 
o amor pede terceira pessoa e presente do indicativo
o amor é um artigo e é substantivo
o amor é masculino e singular
e
o amor é sujeito a (em):

o amor joga a gente em parede
o amor lança a gente do alto de penhasco
o amor rasga a gente em pedaços
o amor não sabe fatiar fininho
o amor prende a gente em quarto frio e joga chave fora
o amor fere, por isso é lindo
o amor dói, por isso é lindo
o amor bota a gente em frigideira sem óleo com fogo no máximo
o amor queima, por isso é lindo
o amor adoece o amor de tão lindo

só na boca de nós amantes o objeto diretamente diz o amor
na boca de outro qualquer, nem lembro mais do que eu estava falando

sexta-feira, 24 de junho de 2011

universal


o direito
vive numa caixa
de bombons
envoltos em celofane
e cheira a chocolate
e formiguinhas entram
dali e saem.
e esses todos (a caixa,
os bombons,
o celofane,
o cheiro de chocolate e
as formiguinhas)
são de direito
tudo um universo

a esquerda
vive regada
num campo hirto
de bromélias
e mosquitos egípcios
por ali param e pousam
sem deixar um ovo sequer
na água limpa e clara
das bromélias.
e isso tudo (o regar,
o campo, as bromélias
os mosquitos e a água clara)
é de esquerda
todo o universo

em paralelo universo
direito e esquerda
se encontram
num ponto negro
cuidando inexistir
qualquer oposição.
o mesmo profundo que
unilados,
unicorpos e
universos.
que tem a esquerda o direito
de viver e amar
como outras quaisquer
no planeta



un pájaro




desde mi condición de mamífero
bajo, loco, tímido
a la de um pájaro
la leche no me más hace goze
me ahora hace daño.

y cambio al pájaro
no por deseo de volar
solo cambio para quedarme solo
aún siendo mamífero
 y abajo.

(si quisiera volar
no me metería a ser pájaro:
cualquier murciélago
me bastaria,
y aún mamable).

um pájaro, no para volar
um pájaro flaco, um pájaro gordo
a penas por las penas
y por los huesos debiles,
por los huesos huecos,

y para arrastrar mis alas sencillas,
sangrientas, y olvidables
por el piso de la habitación
como um pájaro
o como um perro

que yo, eso no soy.

um pájaro que no vuela
um pájaro que ya no puede
cantar de nosotros
y a mi tambíen los otros
no pueden decir nada más

y eso es casi ser sordo
y eso es ser completamente zurdo
que yo, eso ya no soy


quarta-feira, 22 de junho de 2011

O porta-aviões


E quando todos os aviões tiverem partido,
Com suas ogivas termonucleares
Acondicionadas em mísseis de longo alcance
Nos cabides externos sob as asas,

O porta-aviões quedará solitário,
Navegando no mar pavorosamente calmo
Do golfo quase próximo
À costa da pátria redita inimiga.

E quando se ouvir o clarão
E segundos depois o rotundo e inesgotável som,
Já não haverá terra,
Nem costa,
Nem golfo,
Só mar.

...

A fúria do mar engole
Eu, mãe geradora, lançadora da hecatombe.
Meus filhos sumiram no ar
Cuspindo fogo na terra,
Na costa,
No golfo.
E o mar.

Não os condeno.
Entendo a missão, a deles e a minha,
Que como Otto Dietrich zur Linde,
De Borges, ou Judas,
Deve existir atroz para que o novo mundo
Amanheça.

Não sinto culpa (tampouco remorso).
Que não resta mais vida
Para lamentar
A vida.

O Sol forte olha saudoso a Terra
E lambe vingativo as feias asas de Ícaro
De minha prole.

O mundo espera:
Para de girar.

O gesto do silêncio calar é o berro.



terça-feira, 21 de junho de 2011

mineirinha


mineirinha

aonde você vai?
onde ocê vai?
onde cê vai?
on cê vai?

com sua roupa debaixo do braço
e minha roupa no seu abraço

mineirinho

eu estou velho
eu tô velho
eu tô véio
eu tô véi

de guerra de tanta batalha vivida
valha-me a nata que côa a vida

cidadezinha, cidadezim
longe da europa e em nosso mundim
em passos lentos de ida e vorta
ocê vorta o velho
amor que eu pirdi


domingo, 19 de junho de 2011

v ó r t i c e



ficar sem um beijo e
olhar sem um beijo e
tocar sem um beijo e
até, e deus me perdoe
beijar sem um beijo é

dar nó a nossa boca e
castigar nossa boca e
fustigar nossa boca e
até, e deus me perdoe
boca sem outra boca é

judiar do nosso corpo
crucificar nosso corpo
descorporificar o corpo
até, e deus me perdoe
corpo sem outro corpo

...

cultura do amar atenta
ao prazer e à tormenta
geme se beijo não traz
outra boca, outro corpo
amar o amor que se faz

se o amor demora amar
ouço gemido de dentro
ando nas ruas sem beijo
volto pra casa sem boca
deito na cama sem corpo

ouço gemido de dentro
se demora quem se ama
ando de beijos sem rua
volto pra boca sem casa
deito no corpo sem cama




quinta-feira, 16 de junho de 2011

segundo linda mulher




gosto por pela através
esticando sobre sob cada
entre esfrega junto onde
e é

geme pra em e atrás
coçando sempre ou chega
saia espirra grudo quando
a já

penso
troco
deito
quase tanto todo nada pisco

beija
baba
fundo
sequer entretanto colorido

julia e roberts parecem
dois e são nem os mais
de novo


terça-feira, 14 de junho de 2011

mãos dadas 8 - final




Canto.
que é dado aqui um presente
que foi dado a mim de presente
e agora eu Canto o agora
e dobrado
com as mãos e a face na terra
e sou grato

junto os velhos pedaços e agradeço
que deles a vida é singrando
por mares largos,
por poços fundos
com as mãos e a face na guerra
e não mais,
nunca mais

Ela.
tem a poesia ao seu lado
e é e é feita e é dada e se torna
o presente
meu Canto e Ela
são duas
mãos dadas

juntos e velhos e loucos e calmos
fundos e ternos e sustos e certos
hábeis e fáceis e gráceis e pressas
na noite de lua
meu Canto e Ela
se vão
de mãos dadas


mãos dadas 7 - modo default




mal deitas meias dores
move dados emula adágios
amacia adão hermético
hodierno em duo

mil dardos mais dias armados
deduzo hediondas homilias
doida malabarista!
me doa, dá-me

ama, arma, doura, dança
divide mais dois moventes
mostra drásticas malícias
delícias minhas depois

mete dedos meio dúbios
despe, morde
monta dentadas marcadas
mata dupla descarga

...

adivinha manhosa diva
devaneio meu doravante
dia amanhecido mesclados:
manhãs de mãos dadas

úmida deusa, mal domino
esmurra esdrúxulo mel
deixo minha doxa:
manhãs de mãos dadas

duas manhãs doem menos
dias ditando meu mundo
dois meses deixam marcas:
manhãs de mãos dadas

meio-dia me deito
desejo mais dela mulher
melhor dormir meus domingos:
manhãs de mãos dadas

segunda-feira, 13 de junho de 2011

mãos dadas 6 - dois pentagramas



conto de fadas a duas mãos
que a minha mão solitária
há muito que era uma vez:
“e o sapo, que era monstro
só porque se achava

descobriu que tinha mãos
pois cada dedo encontrava
as mãos da perereca
que há muito o procurava”
e eles foram felizes para a frente


mãos dadas 5 - soneto



Não há coisa pior do que um bom soneto.
É chato, feio e, além do mais... é seco.
O soneto é tal como a mão animal:
funcional, simétrica e radial

Ah! Eu lembrei algo ainda mais terrível
que um soneto solitário assombrando.
São estrofes espelhadas e claudicantes
como duas mãos se amando e distantes.

Lê os tercetos então e veja se não
eu acaso teria ou não tenho a razão:
insistes ainda em total contramão?

A via curta, o tempo inda menor.
Se basta pra quem só se ama um só verso,
se bastam duas mãos dadas pro universo.

mãos dadas 4 - verso livre, ou quase



há 400 milhões de anos
um bicho
o primeiro de sua raça
o primeiro chamado
tetrápode
inventou os dedos

oito dedos ele tinha
em cada pata (eram quatro)
e de tantos dedos saídos
saiu-se a inventar a mão
(precedendo a mão aos dedos, só na sua descendência
e só em nossa imaginação)

outro bicho mais esperto
(esperto em que senso não sei)
bons milhões de anos depois
diminuiu a dedada
pruma mancheia de cinco
em cada pata (eram quatro)

segue torta a evolução
que é faca de vários legumes
e frutas e vírus e animais
e milhões de anos após
os tetrápodes herdeiros
de um ímpar lote de dedos
cogumelam-se em diversões

malgrado conservem os dentes
tetrápodes diferentes
transformam os seus apêndices
nas mais loucas terminações:
asas de pena na ponta,
barbatanas balenóides,
cascos quebrados em quina
e uma única unha eqüina
até a ausência plena
dos ofídeos serpentinos
e das anfíbias sirenas

só uns grupinhos conservam,
liberal-conservadores,
a tradição
da penta-digitação
dos longinquos ancestrais
uns tantos lagartos,
morcegos alados
uma poucas salamandras
e todos os macacos

macacos de cinco dedos
já não mais patas (as quatro) chamadas
mas agora ditas
com soberbia
de pés e de mãos

dentre todos os macacos, cito dois
não me peça os nomes deles
que numa noite frienta
num jardim de uma cidade
juntaram seus cinco dedos
de uma das quatro patas
(ou uma mão cada um)

e dadas as respectivas
mãos, uma a destra
e o outro, a canhota
os dois macacos
apaixonados
deram-se os dedos e as mãos
brindando em noite de amantes
o início da evolução


mãos dadas 3 - haicai




beco breu na noite
beijo meu não tem razão
tua mão na minha

mãos dadas 2 - verso quase livre




o pulso dela.
o pulso dela.
o pulso dela gira, gira, 35º a leste
da grande obra de urbanização
planejada do planeta terra que

é o circuito interno do
complexo da avenida do
contorno da cidade de
belo horizonte, minas
gerais, américa do
sul

as pernas dela, no entanto,
não têm o menor encanto
por simetrias urbanas e
preferem
pular o traçado
da prancheta do arquiteto
e transpor o errado
e do errado pro certo

gozando do lado de fora
de além do simétrico
quadro
de mãos dadas o pulso dela
com o pulso do namorado


mãos dadas 1 - cordel

um deus poeta dadá
diria ou deus quer que disse
(eu também sou dado a dizê-lo
com quase a mesma dandice)
que a vida não é de longe
nenhum lance doido de dados
nem nos já de início é dada

que a dívida contraída
em cada lance de escada
em cada vida vivida
surge tal surja do nada
e sem ser antes sentida
fresca renasce em cada
nova renhida jornada

imagine a situação
hipotética, claro, meu irmão,
pra entender o que eu te digo
(e não diga que faço pouco
dum empirismo caboclo)
e está dada a condição
pro entendimento do amigo:

dois amantes nunca dantes
pela vida agraciados
duas almas nem tão gêmeas
pelo destino grudadas
se vêm assim de repente
de lado (nunca de frente)
caminhando de mão dadas

não da-dá um conto de fadas?

domingo, 12 de junho de 2011

para sorrir



o dia está claro lá fora
é claro que está
lá fora
sempre é feito de claridade
tudo tão certo
tudo tão cheio de certezas
que sorrir
é quase uma obrigação

eu também gosto de claridade
chego a quase
gostar de certezas
é claro que gosto
é quase que quase
me obrigo
a sorrir

basta, para sorrir
quase vestir-me
de algo
que é claro
e que não sou

basta, para sorrir
quase colocar
a claridade
e as certezas
no lugar sujo
da verdade


sexta-feira, 10 de junho de 2011

12 de junho



o corpo do cristo é triste
por no dia 13 por azar
comemorado

comemos tarde da hora da missa
um corpo gelado
um dia depois de comemorar
o comer quente com o meu namorado

lambemos o vinho envelhecido
(coagulado sangue divino)
em tonel de carvalho

que o amor, a verdade e a vida
se bebem antes
em tonéis de amantes:
boceta e caralho


havia urbana




rua reta e torta concreta
cucuruquieta tornado um rato
via de volta e ida viagem
guapa guarita, seguro, garagem

fale e escute, fela kuti
o amor quero mais que me chute
do ônibus dois buses
tô de paro no ponto
tô de pé na janela

ela, ela, ela, ela
com quantas quatro meninas
se faz a cidade
de nome e da cor amarela?

o prédio ali
tem tudo e tem todos
amores meus, menos eu
quadro de aviso no quarto piso:
“numa só avenida
tem um só carro no meio
e outro meio de vida”

meu bar, meu bar, meu bar
quantas branquinhas e loiras
uma vermelha semana
güenta a neguinha tomar?

me bata, me bata, me bata
pra quê rimar toda via
se toda a minha poesia
termina e termina com ata?


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