quinta-feira, 6 de junho de 2013

angústia




centrado na angústia
o presente pretende
criar a presença
de um protagonista

e apenas exerce
no plano da obra
um´atmosfera
de abafamento

...

e transborda
na estrutura
de composta
de fragmentos

sobrepõe-se
assim os planos
de estilhaços
cronológicos

e revelam
as vertigens
asfixiantes
do relato
.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

gosto de te ver, meu



gasto de te ver, meu lencinho
antes de assoar meu nariz
pronto,
mole e pronto,
moldando-se à mão como  
fosse deslenço
e
desdocumento

gasto de te ver, meu lencinho
limpando-me o sangue à boca
mordido que fui
pronto,
fino e pronto,
cravando-se ao meu pomo  
tosse nolenço
e
descobrimento

gosto de te ver, meu lencinho
pronta
pra deslinçar

.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

vinte



reclinando-me estou
vidiando os pássaros que bobos passam no céu acima
reclinando-me estou
enfim,
vidiando as aves que voluptuosamente avuam a-í. 
enfim.
não enfim serendo-me
mas contudo ou nada
vidiando luzes e cores novas
vidiando cruzes e cheiros velhos
vadiando em brisas de outras vozes
não mais 
atazanado no ora-ora
ora levantando-me,
ora sentando-me,
ora agachando-me
ora tornando-me a sentar
e não ora mais deitando-me.
apenas...
às duras apenas
reclinando-me.

o amor tem desse
requinte.
faltam-me apenas dezenove centavos pra completar vinte.



terça-feira, 5 de março de 2013

tardar e terdor



pessoa não ser amada?
a dor é imensa e vence qualquer são sustento não ser amada
a dor vem de baixo
a dor vem dos pés, que ambos queimam
dói vez que a terra, e o solo, e a base
como tivessem outros negócios
retirassem-se, em debandada
deixando no chão – ou em seu lugar
o vago

pessoa ser muito amada?
a dor é imensa e vence qualquer resistência ser muito amada
a dor vem de cima
a dor vem e aperta, e sufoca
dói vez que os céus, e o cruel firmamento
como só esse fosse o seu negócio
mergulhassem, em mísseis guiados
abrindo em rádio altiva cratera
buracos no self

ah, pessoa, e o oposto sem gosto
de um e de outro?
ser amado pela metade
é mais dor que a dor já convinha
comprime como tenazes
a cabeça
e os pés igualmente
de pólos opostos fechando
o ser em um ser que era pouco
o ser em um ser que era muito
de toda dor feito nada?

das dores quase piores
(só delas) falei
que terríveis relatos de monstros
parece à desavisada
pessoa me agora escutando!
e no entanto
repara:
nem se compara
ser amado nada, inteiro ou metade
com pela metade amar
eis aí o fim do mundo
a  princi  pi  ar 
.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

amorte



um passarinho treme de frio e de fome na noite vazia
no alto, no céu, silhueta um vulto voando só
desce qual raio o animal de rapina, qual raio
some pra sempre do mundo um pedaço de dor

quer ser engolida? – pergunta o fogo à palmeira
posso arrancá-la? – oferece a menina à flor

dispo-me tarde demais de um sonho inebriante
nu já não posso vestir-me com as graças que escolho
deixo-me a única roupa do corpo que resta
- é meu sorriso?
- teu riso mata meu frio e minha fome de amor

o que fazer da vontade vermelha que eu tenho
de te pegar pelo braço e sair pelo mundo?
subo no galho mais alto que eu posso do ipê
e dou-me em calmo presente pra ti me comer

.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

bislabial



me custa crer que um pedaço de mim
(digamos assim, meu lábio inferior)
tenha enfim retornado à face trêmula
tenha tornado a compor a mandíbula
rerrecobrindo meus dentes da frente
rerrefazendo minha cara de gente

acostumava-me eu a olhar-me
no espelho - que os dois olhos sempre os tive
dentes sujos, amarelos, expostos
o véu cachoeiro nos meus sempre olhos
pouco escondia – da dor que eu então sentia
no amarelo e sujo de cada dia

agora é melhor desviar-me do espelho
os olhos os tenho – tenho certeza
não me falta mais faz, ver-me pra trás
meus lábios os junto e selo a minha boca
e calo o medo da face composta
refeitos restos, respiro a resposta

.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

o que passa por dentro e alivia a noite interminável?



e o tempo vai
como só o tempo sabe:
ponteiros grande e pequeno
marcando minutas horas
cada vez mais díspares.

temei o relógio centrífugo:
que ao apontar
desaponta
nossas palavras feitas de números.

o que passa por dentro e alivia a noite interminável?
que o sim nos diga. 

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Haicai (do Conde Arthur)

No branco da paz,
giram, turbinadas
as emoções de toda as cores

Mini-hai-cai lógico-matemático

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