sexta-feira, 23 de setembro de 2011

comer, escrever



dizem aí pelas linguas que comer é um ato social.
julgam sobver ou sobrever na etimologia do nome do ato,
o latinório que justifica a cisma:
cum edere, comer com, com comer, comer junto.
o participar de outros, ou de alguém mais,
no ato de enfiar coisas na boca.
bobagem!
abre-se a boca e engole-se algo. e é tudo. no mais das vezes.
claro, boas companhias melhoram o sabor da comida,
tal como as más engulham, agravam a má digestão.
e assim o ruim e o bom se anulam.
tal como comer sozinho é bom e ruim
e ao ponto de partida voltam em mãos dadas
tanto os prós como os contras da comida.

mas escrever, por outro lado,
é totalmente desprovido de solidão.
escrever é, de todo em todo, um afazer social.
não porque se escreve pra outros, ou pra alguém mais,
no ato de enfiar coisas na escrita.
bobagem!
se assim fosse, a agenda de telefone,
esse depositário da memória individual,
seria inútil e, por tão ensimesmada, desproposital
tanto os prós quanto os contras da escrita.

escrever (ou digitar, como é corrente nesses hojes de hoje)
é disposição no todo em todo social
pois é fundamental
amar pra escrever.
e dito isso, não preciso dizer mais nada.


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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

2917 A.D.



eu barco navegando À Deriva
madrugada adentro e eu entro em nada
(não há farol neste mundo que me guie como tu)

eu claro duplicando essa face
é imagem dentro e eu adentro nada
(não há espelho neste mundo que reflita como a ti)

eu rato mordiscando a comida
é presa e entro eu dentro de nada
(não há gato neste mundo que mie como tu)

és louca em fazer-te menina
deixando de fora meu fauno diário
(morrer na praia é morrer ao cubo se não como a ti)

900 anos passados e o desejo é o mesmo
(mesmo nós não sendo nós mesmos pela manhã)

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sábado, 17 de setembro de 2011

entrada e saída



chego no prédio
toco o interfone
ela diz: entra
eu entro
vou pro hall
subo no elevador
chego no apartamento
toco a campainha
ela abre a porta
quase entro
passo os dedos pelo batente
da porta
e entro
...
ela diz: sai
saio do apartamento
deixo a porta da frente
desço pelo elevador
vou pro hall
saio do prédio
saio
...
o ciúme tiene duas vias:
1) para entrar, hay que pedir licença
2) para sair, no más que minha obrigação

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segunda-feira, 12 de setembro de 2011

sempre imaginei



sempre imaginei, em minha infância de adulto,
que a calma era o oposto ao ir fundo,
nas coisas, pessoas, nos mundos.

acostumei-me a isso.
se a calma não fosse isso (eu pensava),
nem mesmo a isso eu me acostumava.

nem a velhice cor de laranja
dos meus 40 anos, ensinou-me diferente
(nem velho o diabo sabia o que por ser velho soubesse)

só no ato da coroação
quando muda a cor da passageira paixão
é que verte a calma,
líquida e derramadeira
enchendo o cálice do amor
de ainda pior confusão.

mas o que é isso que digo!
falava eu da calma, não é mesmo?
então que diabo de voz é essa,
que faz da calma um objeto
e dela disserta como em um texto?
isso aqui é poesia afinal,
ou um discurso em verso alternado
velando um escondido furor teatral?

o poema é distinto do dramaturgo monólogo,
que o monólogo quer, irrestivelmente,
duplicar-se em diálogo.
o logos da fala monologada
do meio do palco,
a mensagem alçada,
à plateia postada,
dispersa na arquibancada
e duplamente dialoga:
consigo mesmo e com quem for
(é a dança do ouvir-e-o-tagarelar interior,
trazendo pra tela do texto,
o que em muito de si tem o autor).

poema não fala nada, só faz.
pois quem escuta o poema
não é plateia, nem nada, nem gente, aliás.
é a própria autoria desorientada
que colhe plantadas palavras
e as traga como cenouras
cagando-as logo após
em bosta no tom avermelhada.

mas falava eu da calma, não era?
ou será a querida ouvinte,
que tomando do embuste ciência,
já perde com este sujo vate
cada quilate de sua paciência?

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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

primeiro de setembro



chorando sozinho eu não fico
perdão pela minha alegria
felizmente eu tenho a tristeza
pra me fazer companhia

nas horas mais difíceis dessa vida
é fácil achar motivo pra sorrir
o duro é vomitar dias perdidos
dar mole presse choro te engolir

chorar não esvazia essa tristeza
sorrir não enche a vida de amanhã
o sorriso é a sombra da macieira    
o choro é sementinha de maçã   

eu tento me esquecer do dia primeiro
do mesmo mês há um ano exato atrás
se lembro a estrela é menos paraíso
setembro meu inferno astral é mais

chorando sozinho eu não fico
perdão pela minha alegria
felizmente eu tenho a tristeza
pra me fazer companhia

domingo, 28 de agosto de 2011

brilho dos sóis



cheia, rica, gorda, grande, funda e diversa
é a hora extendida em nossos dias desde essa nossa reconversa.
boa, alta, farta, larga, densa e repleta
de esperas é cada hora do dia em dias de paralélica reta.
(cada reencontro é uma caixinha
de reencontros acondicionados
todos dentro da mãe
de cada reencontrinho
reencontrado)

dias quentes, dias claros, mistério nenhum bajo tantos sóis.
sempre logo, logo, nunca rapidamente após.
o tempo em espiral retesa na caixa surpresa de nós,
pulando o amor nosso ao mundo, é surpresa pro mundo?
e onde e quando o porquê da surpresa,
se é o próprio mundo lá embaixo
a nossa mola de pressão?

é por demais em cheio o amor.
e por demais rico e gordo
e é grande e fundo
e é bom e é alto e é farto e é largo,
é demasiado denso o amor,
prum cheirinho de culpa (eu penso),
proutro tanto de ansiedade,
de ciúme, de medo e (quiçá) de verdade,
roubar dos dias a quente hora extendida
que tão bela e habilmente tecemos
todo nosso santo dia.

“há um sol brilhando lá fora”, alguém diz,
com inverdadeira economia.
mil sóis brilharão antes e brilharam depois,
em profusão inaudita
do numeroso montante imenso de cada vida.
tá pra nascer alguém que não verá dois sóis no céu
e poder dizer que não os viu
e se o disser já mentiu
como há muito explicou Galileu.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

discordando


se eu tivesse uma corda
eu passava ela em volta
se eu fosse uma corda
eu cortava as duas pontas
se eu fosse essas pontas
eu acordava pro mundo
como desperto
desapontado
de um sonho fundo
que agora é longe
 
se não é corda o que eu tenho
eu não mais passo ela em volta
se não é corda o que eu sou
eu não me enrolo em dois cantos
se eu não sou esses cantos
baixo o volume do som
com o canto certo
como encantado
de um sonho bom
que agora é perto
 
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Haicai (do Conde Arthur)

No branco da paz,
giram, turbinadas
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