quarta-feira, 6 de abril de 2011

as mãos e as bocas



bocas abertas no dentista
desdão as mãos no trabalho

qual outra mão que tu destes? (diz a mão)
que outra boca beijastes? (diz a boca)

mas é mentira e se calam
(guardam os medos nos bolsos)

buscam as bocas silêncios
mostram-se as mãos maternais 

a mão
enlaça o mundo, enlaça a mão do menino

a boca
engole a vida aos dois, e engole a boca

a pele das mãos no toque
trocam de pele as mãos

o gosto das bocas juntas
jantam-se a gosto as bocas

improvisam um orifício
no quente degelo global

a mão na mão forma um arco
boca com boca um contorno

descem medos pelo ralo
e a menina caiu pelo vãozinho

domingo, 3 de abril de 2011

Zarzuela


quando eu pensei que é triste o passar das horas, das horas
tudo sempre nunca, hoje
onde eu deixara ficar os cantos dos espaços vazios, vazios
todo lugar é nada, aqui
e ela vem cheia ela mesmo enchendo a mim cada passo a passo
o corpo que é copo por ser copo
e é copo por ser vazio
e ela nos vem entornando assim em ternura forte, quente, quente
a cada com passo passionando
os sete lados
deste lado
de nós
antes des atados
e ela vem zonza, reina, tonta, bela, zarzuela, zarzuela
a cada compasso passionando
os sete lados
deste lado
de nós
otros agora

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jesus e Madalena


jesus acorrentado,
sem apóstolos nem novena
num sítio ermo deitado
no colo de madalena









crianças entre crianças
duas vidas pela frente
no futuro do menino
a menina é o presente

jesus acorrentado,
sem apóstolos nem novena
num sítio ermo deitado
no colo de madalena

crianças sobre crianças
são tantas (e tão certeiras!)
olhando pra todo lado
pra nós, pra vida inteira

jesus acorrentado,
sem apóstolos nem novena
num sítio ermo deitado
no colo de madalena









mas nós dois é só um canto
da varanda atrás da lua
menina e menino vestidos
com essa ternura mais nua

jesus acorrentado,
sem apóstolos nem novena
num sítio ermo deitado
no colo de madalena

sentada a menina olha
a própria beleza estampada
nos dois olhos do menino
que miram ela e mais nada

jesus acorrentado,
sem apóstolos nem novena
num sítio ermo deitado
no colo de madalena









a mão da menina pousa
na mão quente do menino
beijos dele nela aquecem
os dois amantes dormindo

terça-feira, 8 de março de 2011

Poema pra toda e qualquer mulher


Há quatro flores bonitas no meu jardim:
você,
minhas meias coloridas (que contam então duas beldades),  
um cafezinho que tomei na agência

Mas ai, não sou bom jardineiro!
você deixei me levar,
as meias devolvi pra minha filha
o café derramei no meu patrão.



Há quatro frutos maduros no meu quintal:
você,
as mangas da minha camisa (perfazendo então duas delícias);
e um tremendo abacaxi selvagem

Descasco você ou as mangas?
você é doce e azeda
as mangas desfiam arregaçadas
o abacaxi eu me diz: sumo



Há quatro nações soberando meu mapa:
você,
Sérvia e Montenegro (que hoje somam exatos dois);
e a brasileira que me ufano vivendo

Uma verdeamarela a razão, outras duas conheço de nome.
E você, sabe o que acontece? 

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

III Seminário Ciências e Cognição

e
I Encontro Ciências e Cognição
Tema: Novas Fronteiras Cognitivas 

Rio, 16 a 18 de março de 2011

O III Seminário Ciências e Cognição: Novas Fronteiras Cognitivas volta-se para a promoção da articulação de ideias, experiências e conhecimentos entre os professores, pesquisadores, acadêmicos e profissionais das áreas de educação e neurociências. Com este propósito, o NuDCEN (Núcleo de Divulgação Científica e Ensino de Neurociências), da UFRJ, e a revista científica Ciências e Cognição, da Organização Ciências e Cognição, organizam e apresentam o evento. Local: Casa da Ciência - R. Lauro Müller, 3, Botafogo, Rio de Janeiro - RJ


mais informações no site do III SCC
 

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

oh entrelinda dos meus vícios!


oh entrelinda dos meus vícios!
oh amor doidiva de duas vidas a mim doída a doar
sereia imersa por sob meu lobisomem ao mar de sargaços

potra livre em pisoteio por a rala grama do meu pastar
leoa a buscar emboscar e me em fim devorar zebrados apreços
rocha dura que à mais secura previne a chuva de em mim regar

oh bolita!
o que é que eu tenho quicar com isso com esse sem nessa nem nossos?
oh bolita!
o que é que eu tenho com isso com esse sem nossos nem nessa quicar?
ah dstringente! ah bsorvente! a par de abas sugar meus alados soluços

par de pés caminhos tortos cheios de dedos a me passear
par de pernas a me sustentar feixes de fibras febris suplícios
par de coxas em sol salgadas minhas massas empadas a bem folhar

par de nádegas a me acolchoar a funda bacia das almas roliças
par de ancas aos tremores meus fundos temores a desbalançar
par de costas da pá virada de ré engatada de pêlos avessos 

par de braços de braços dar o maior trabalho a mim me dar
par de ombros aos meus umbrais, pôr poe-poemas aos embaraços
par de seios evanescentes de viés soslaios a me a vistar

par de ouvidos parte envolvidos me a partidários pardos felícios
par de narinas namoram chorosas cheirando cheirosas meu cheiro do ar
par de olhos a verdejar-me as hirtas picadas em mato hortaliças

loura em beldade que me encantado entoa à toa por bel-cantar
amarela dela tresdourada égua a me até galopar precipício
roxa flor dália que à vista prazo que em mim engasgo de até ofuscar

rubra boca a me aberta engolir de um meu só trago ga-go ga-go
branca mão me manipular-me meu artefato. fato
preta delírio pronto. ponto

AS FILAS DE FRANCOLISE

Maj. Sebastião da Costa Veloso, veterano da FEB


Francolise é uma cidadela situada ao norte de Nápoles, Itália, em cujo redor os camponeses cultivam a oliveira e alguns canteiros de milho. Escassos bosques á beira de regatos condutores de água para irrigação, naquelas terras cansadas pelos milênios de exploração, ao longo da Via Ápia.

Foi ali que nossas tropas - terminada a guerra - ficaram acampadas por mais de dois meses, aguardando o desejado embarque de retorno à Pátria. Um calor imenso obrigava a turma a ficar quase sem roupa, só de calção, enquanto parada no acampamento.

Intermitentemente, partíamos em "tocha", mais para o Sul ou para o Norte, procurando aproveitar o tempo para conhecer o país que fora palco de nossa luta e que, conseqüentemente, sofria seus efeitos, com obras de arte destruídas, cidades em ruínas, miséria rondando lares, famílias desintegradas. Praticamente, todos os que viveram envolvidos em combate não conheciam a Itália, por absoluta falta de tempo, até então. Era natural, portanto, a nossa curiosidade em conhecê-la, agora que estava livre da guerra.

Nas fugas para o Sul, íamos a Nápoles, Pompéia, Herculano, Torre Anunciata, Salermo. Para o Norte, demandávamos Roma, Pisa, Florença, Módena, Bolonha e até Veneza, para os que viajassem mais. Cada "tocha" desta tinha sua estória particular, com detalhes interessantes ou grotescos, com surpresas alegres ou tristes.
Era comum sairmos em dupla de amigos - meu companheiro mais constante era o Meireles - passando dias e dias perambulando por terras estranhas, só vendo italiano, só falando italiano.
Mas, em torno de Francolise, um singular espetáculo se tornou comum e que todos nós recordamos e contamos, como um dos registros da situação de um país que foi palco de operações bélicas, sofrendo seus horrores e, em seguida, as suas conseqüências: as famosas filas de Francolise.
-Quem não se lembra delas?
Aquelas filas de homens seminus, brilhando de suor, esperando a sua vez de praticar um dos mais antigos atos fisiológicos que a natureza solicita para a perpetuação da espécie.

Na ponta das filas, geralmente, um pequeno bosque, perto de um rego d'água, um espetáculo diferente, deprimente, repugnante mas curioso: Uma mulher seminua, pertencente à mais antiga das profissões, atendia aos jovens, com pequenos intervalos - o suficiente para se lavarem no rego d"água - e à vista de quem quisesse ver, em repetidos atos sexuais, dizia convicta: "altro".

Os primeiros da fila ficavam observando aquilo, excitando-se até, esperando sua vez, levando nas mãos um maço de cigarros e um preservativo de borracha, profilaxia das doenças venéreas.
No fim da tarde, via-se, no centro do bosque, um monte de maços de cigarros  de um lado (um maço de cigarros era o valor de cada ato) e de outro, outro monte de "camisinhas", além do chão massageado pelos combates sexuais da jornada.

O conceito de moral sempre variou de acordo com as circunstâncias, com o tempo e com o espaço. Qualquer noção de pudor desaparece tão logo chegue a necessidade premente e inadiável de comer, de sobreviver. A fome deteriora a vergonha, o respeito humano, tudo.

Aquelas mulheres precisavam comer, precisavam viver. A Itália continuava existindo. É a desorganização de um país derrotado é uma realidade cruel. Tudo desaparece: trabalho, emprego, víveres e as pessoas sobreviventes precisam continuar vivendo. Portanto, nada a censurar o seu labor, a sua defesa.

Também os que delas faziam uso não merecem censura. Se no início tinham repugnância pelo que viam - isso é chocante - por outro lado, há a considerar-se a grande capacidade do homem em adaptar-se ao meio ambiente. Portanto, seu procedimento também fica fora dos conceitos de moral.É procedimento amoral.

As filas de Francolise ficaram famosas e, ainda hoje, 40 anos depois qualquer veterano da FEB que ouve falar delas, sabe do que se trata. Equivalem àquelas cenas também comuns nas ruas de Nápoles e de Herculano, quando anciões ofereciam as suas filhas e netas, como última matéria-prima de que dispunham para sobreviverem.

É um dos restos da guerra.

Um retrato de miséria que deve ser lembrado para se ver que a guerra é uma grande estupidez que a humanidade tão bem conhece mas insiste em praticar.

Além das mortes que causam - e a morte não é o pior - das mutilações, das doenças, dos prejuízos materiais, deixa essas seqüelas ai, por longos anos.

Por tudo isso viva a Paz.
Não devemos temer a guerra, mas devemos desejar a Paz. E, se for necessário, inevitável fazê-la, que se desenvolva só lá no estrangeiro, e nunca neste solo abençoado, neste solo brasileiro.

Transcrita da revista "O EXPEDICIONÁRIO" nº 102  de Junho de 1982

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